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O que fazer diante desta fala?

Fga Dra. Marisa de Sousa Viana Jesus – Crefono 6-1415

“Você percebeu o que está acontecendo com ela? Ela está falando muito diferente. Não sei se está brava, insegura, com raiva da irmã, sei lá, só sei que isto não está normal” insistia meu marido. Enquanto estas palavras ecoavam dentro de mim, meus ouvidos fingiam não escutar. Minha resistência se fundamentava no medo de não saber como agir diante de repetições de sílabas, bloqueios, prolongamentos e atropelos que se fizeram presentes na fala de minha filha de cinco anos. Sabia que existia a chamada disfluência ou gagueira fisiológica, mas até então ela existia somente nos meus livros. Deparar-me com esta teoria na fala da minha filha me fragilizou. Minha florzinha era muito comunicativa, inteligente e espontânea, mas como lidar com este impedimento de expressão, como lidar com tanta prisão?

Este mar de emoções vivido por mim, mãe e fonoaudióloga, repete-se frequentemente na mente das mães de crianças com idade entre 3 e 6 anos, quando se observa algo que pode ser fisiológico e passageiro, se bem conduzido, ou… ser a ponta de um iceberg de uma gagueira crônica, que perdura por vários anos.

Este episódio me encaminhou para um estudo aprofundado na área da Gagueira, o que me fez ver que muito se pode fazer para minimizar e melhor lidar com esta alteração na fala. Estudos científicos têm desmistificado muitas crenças sobre a gagueira, tais como: que o gago gagueja porque fica nervoso ou ansioso, que ele pode ter controle sobre sua gagueira, que ele pensa mais rápido do que fala e que ele aprendeu a falar assim por tentar imitar alguém.

As pesquisas mostram que a gagueira tem um componente forte de hereditariedade e é um comprometimento neurobiológico, devido a um funcionamento anômalo de parte do cérebro responsável pela automatização da fala espontânea (e nãopela f ala automatizada como ocorre na música, em que geralmente, não se gagueja). Também podem ser observados resultados favoráveis quando se usam técnicas para controle consciente da fluência da fala. O fonoaudiólogo, fundamentado em teorias da fala, orienta o trabalho voltado para minimizar a gagueira utilizando técnicas relativas a prosódia, velocidade, articulação, respiração, dentre outras, com o objetivo de identificar, dessensibilizar e modificar o padrão de fala.

Como, “depois da tempestade vem a bonança”, termino desafiando os leitores que se identificaram com o que foi dito, como familiar, ou como aquele que vive tentando driblar sua gagueira, a se posicionar no sentido de fazer algo para minimizar este incômodo. Para isso, deve-se ampliar a visão para enxergar a criança e sua própria vida sob outros prismas, valorizando mais o que se tem a dizer do que a forma como se diz. Também é preciso buscar a ajuda de um fonoaudiólogo. Este pode orientar os pais e familiares e conduzir o paciente a uma fala mais natural, com maior liberdade para se expressar, facilitando para que ele possa se ver para além da gagueira.